segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Eu



Hoje vou me travestir de mim mesma para revelar o que o meu íntimo insiste em mostrar descaradamente. Depois de ontem pude perceber a realidade do meu ser que antes era ligado de forma obrigatória a um ventre que não me pertencia. Depois do dia de ontem eu descobri o porquê da minha essência diferente, descobri-me patinho feio nesse lago, nessa represa. Depois do dia de ontem sou estranho no ninho, louca sã de mim. Descobri que sou adotada e o fato apresentado nem me foi surpresa muito grande. O seio do meu lar me mostrou o quanto sou diferente, os meus vizinhos me escancararam a verdade já sabida, aqueles que me rodeiam disseram a plenos pulmões a realidade, me escreveram mensagens intermináveis provando matematicamente a minha orfandade. Assustada, de princípio, me vi com tantas informações que a mente tentou implodir, mas a serenidade religiosa me colocou em eixo novamente. O meu reconhecimento como ser humano, não dependia unicamente das novas informações que me davam, mas do que eu sempre fui. Respirei profundamente meditando aquelas novas visões do mundo e cai em mim depois de alguns minutos. Ouvi, semicalada, ouvi em torpor, ouvi estrondos lacônicos e vibrantes de novas [?] afirmações. A comunicação existiu eu entendi a mensagem, o emissor se apresentou em som e onda e imprimiu nos meus ouvidos e cérebro as palavras pungentes que me transmitiram horror, angústia, desolação.
Ontem à noite me senti órfã, sem reconhecer a minha casa, a minha cidade e principalmente o meu país. Não faço parte dessa xenofobia angular que atingiu o norte e nordeste. Não faço parte da visão díspar do que é certo ou bom. Não faço parte desses seres humanos MEDÍOCRES que não enxergam o outro de forma igual. Os brasileiros genocidas que se apresentaram ontem são seres não-humanos, brutos, sem civilidade ou conhecimento. Certamente vivem em um lugar escuro e sem esperanças, matilha humana de animais selvagens que buscam rasgar, quebrar, destruir o outro que não se enquadre ao bando.
Ontem eu quis ir embora daqui, mas não pela eleição e sim pelas faces de cães raivosos especialistas em tirar dignidade, opção, força, humanidade do outro. Estou...estou...eu nem sei te dizer como estou, sinceramente não sei te dizer o que estou. É muito mais do que asco, é muito mais do que estarrecimento, é muito mais do que incompreensão, é muito mais do que eu senti no primeiro turno. É tanto que meu coração não deve aguentar por muito tempo. Mas eu vou, sei que tenho que suportar, eu vou suportar, não por mim, não pelo o que eu quero, não pelo o que eu acho, mas pelo o que esse povo representa. Eles são minha família, meu sotaque, minha fé, meu destino. Eles são eu, eu sou eles, nós somos mais fortes.
Minha cabeça ainda lateja um pouco, preciso de novos ares, novas mentes, novas visões, novos horizontes. Ainda é preciso muita luta para mudar as concepções mais mesquinhas, ainda é preciso muito chão para que nos enxerguemos como iguais, ainda é preciso muita humanidade em nós. Je suis desolée! Mas ainda busco uma pátria verdadeiramente mãe.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Tipo de gente



Das experiências da minha vida, uma delas me ensinou mais do que eu imaginava. Certa vez, estava em uma roda de pessoas, alguns conhecidos, outros não até que chegamos ao assunto religião. Perguntas para lá e para cá, até que me perguntaram:
- E você é o que?
- Sou umbandista.
E, como em geral é, existe um desconhecimento do que é a Umbanda então expliquei superficialmente os preceitos da religião, a forma ritualista. Conversa vai, conversa vem uma das pessoas me pergunta:
- E que tipo de gente frequenta centros de Umbanda?
Inicialmente não entendi o que a pessoa queria dizer. Que tipo de gente?
- Como assim, que tipo de gente?
- Tipo qual é o perfil de quem vai lá? Qual a raça predominante, grau de escolaridade, profissão?
Entendi o que ela queria saber, a pergunta dela não era só que tipo de pessoa frequenta, mas que tipo de pessoa se deixa acreditar por essa religião. O sorriso levemente sarcástico nos lábios da pessoa reforçava meu entendimento. Confesso que no momento só me vieram a mente respostinhas rápidas, daquelas que podem e sempre vão magoar. Pensei em um milhão e meio de coisas em 2 segundos para dizer, por fim:
- Posso te responder na segunda? Tenho que ir agora.
- Claro.
Levantei-me, disse adeus a todos e fui embora meditando naquela pergunta. Pensava que no tempo em que frequentei a igreja católica, no tempo em que frequentei o kardecismo nunca haviam me perguntado que pessoas seguiam aqueles dogmas, aqueles preceitos. Nunca foi motivo de curiosidade as pessoas que acreditavam naquela fé e porque deveria haver com os adeptos da fé umbandista? Fiquei me perguntando que tipo de pessoa eu sou, afinal também frequento o local. Será que me pareço tão absurdamente diferente dos demais integrantes do mundo religioso? Cheguei em casa pensando nisso, dormi pensando nisso, acordei pensando nisso e fui para a gira, o encontro quinzenal no terreiro, pensando nisso.
Os trabalhos começaram e eu estava acabrunhada com aquele questionamento, meio chateada mesmo com a intenção maldosa daquela pessoa, o que será que ela queria provar? Por que tratar a fé do outro dessa forma? Percebendo meus pensamentos uma das entidades, que estava incorporada, mandou me chamar. Embora a médium fosse uma mulher, a entidade que se apresentava era um homem, um senhor de muitos anos. Tinha um cachimbo na mão, um galho de alecrim na orelha e um olhar profundo. Pediu que sentasse a frente dele onde havia um banquinho branco. Sentei como ele pediu e logo o velho veio falar:
- Minha filha não está muito bem hoje, não é mesmo? Se chateou com as conversas moles daqueles que sempre querem balançar a fé do outro. Não se deixe abater por quem não quer o bem. Não se deixe chatear por isso, não baixe seu padrão energético por nada, muito menos por essa pessoas.
Fiquei perplexa, pensando que eu não disse nada a ele. E, como se lesse meus pensamentos, me olhou profundamente nos olhos e sorriu. Puxou uma baforada do cachimbo, pegou minhas mãos, deixando-as espalmadas para cima, e soltou a fumaça sobre elas. Olhou, olhou, olhou parecia ler alguma coisa nas minhas mãos abertas e, apesar da minha curiosidade, nada disse.
- Então, se ela quer saber que tipo de gente vem aqui... olhe em volta e me diga, que tipo de gente vem aqui?
Virei olhando, ainda em espanto, para todos os que, como eu, estava sentados à frente de uma entidade. Contando-lhes problemas, buscando soluções, querendo saber mais a respeito da vida depois da morte, querendo saber mais do seu caminho na Terra.
- Pai, não sei dizer que tipo de gente vem aqui. Só vejo homens e mulheres, de todas as cores, das mais variadas roupas, não sei onde trabalham ou o que fazem. Não sei dizer se tem boa vida nem mesmo o porquê de estarem aqui...sinceramente não sei o que responder.
- Tem certeza?
- Tenho sim Pai.
- Então eu vou te dar uma ajudinha – e sorriu levemente – Sabe que tipo de gente vem aqui? – Fiz que não com a cabeça e já estava aflita com a resposta – Só existe um tipo de gente que vem aqui minha filha, do tipo que quer ajuda. Do tipo que precisa de apoio, do tipo que não vai esmorecer até achar alguém que possa mostrar como é o caminho.
Por um momento fiquei anuviada, quanta simplicidade, quanta profundidade, quanto amor.
- Olha ali, aquela senhora de muleta. - Me virei, era uma senhora baixa, bastante magra, com os olhos miudinhos, andando de encontro a uma das entidades - Quando ela chegou aqui não andava, não falava, vivia em um mundo perdido na própria mente, veio acompanhada da filha. Os médicos disseram que a senhora não passaria de um mês de vida. Como a maioria dos atendidos, a filha veio com a mãe por não ter mais opção dizendo que não acreditava nessas coisas, mas que o importante era a mãe melhorar. A senhora passou do mês que os médicos disseram, depois mais um mês, depois mais um e mais um, hoje já fazem bem uns 4 anos que ela vem aqui. Aos poucos ela começou a sorrir, depois balbuciava algumas coisas, começou a falar, a se movimentar e hoje já anda com a ajuda da muleta.
Não acreditei de pronto, como ele poderia saber tão bem daquilo?
- Simples filha, aqui todos estamos em corrente, vibrando e trabalhando em prol de todos, posso não atendê-la materialmente, ela não está sentada no banquinho comigo que nem você, mas no plano imaterial eu a visito e a ajudo.
Fiquei com vergonha do pensamento, depois de tanto tempo naquele terreiro, convivendo com as entidades sentindo-as tão fortemente ainda me pego pensando isso.
- Aquele rapaz – virei para o outro lado e mirei um rapaz alto, forte falando com outra entidade – ele veio até nós, metade por obrigação imposta pela mãe e metade porque se sentia fora de controle, bebia demais, vivia em farras demais, estava envolto de obsessores que só mantinham o ciclo de boemia e ele como não queria ser diferente ficava. Hoje é outro, trabalha, estuda e está noivo daquela moça ali ô – Apontou a moça – Eles ainda terão uma caminhada bastante longa, mas quando se tem propósito, ainda mais andando junto com o outro, fica fácil, fácil. Olha, aquela moça com as duas crianças. Ela vem sentar no mesmo banco que você está, me lembro bem dela. Arredia, descrente, desanimada, orgulhosa. Foram muitas explicações e conversas até que ela entendesse os preceitos daqui, até ver que o mal está em qualquer lugar que se dê espaço. Ela vinha de outro templo, de outra religião, só veio porque os meninos dela estava doentes de não dar jeito. Aos poucos ela foi melhorando e com o trabalho aqui os meninos ficaram bonzinhos em uma semana, sem sinal de dor. Depois do trabalho feito, os meninos saudáveis, ela disse que iria abandonar o outro lugar e só viria aqui. Sabe o que eu disse?
- Não senhor.
- Disse que Deus, o Pai de todos, o caminho de todos, estará em todo o lugar que ele for aceito. Ela não precisa largar lugar nenhum, ela precisa fazer o bem e amar o próximo. E, é claro, que ela pode frequentar quantos lugares ela quiser, desde que sejam lugares do céu na terra. Minha filha vê que pouco importa o tipo? Que aquele que vem aqui, vai lá? Minha filha entende?
- Entendo sim senhor.
- E já sabe a resposta?
- Acho que sim... – Disse isso olhando para o chão e com a mão no queixo ele levantou meu rosto.
- É claro que sabe minha filha.
Agradeci, abracei aquele corpo “emprestado” e voltei ao meu lugar. Fiquei reparando a moça com os dois meninos indo de encontro ao velho. Que tipo de gente vem aqui?

Na segunda-feira, de volta a roda com as mesmas pessoas, confesso que fiquei um pouco apreensiva. Será que eu saberia passar o ensinamento? Conversa vai, conversa vem e a pessoa que esperava pela resposta me perguntou:
-E aí, já sabe me responder?
- Sei sim, mas qual é mesmo a pergunta?
- Uai, que tipo de gente frequenta um terreiro de Umbanda?
- Pensei muito antes de ter uma resposta e, até agora, não sei se vou te responder como você quer, mas a resposta é mais simples do que pretendemos. Que tipo de pessoa vai lá? Do tipo que quer ajuda, do tipo que tem fé, do tipo que vê na simplicidade das palavras das entidades a luz no fim do túnel. Lá vai o tipo de pessoa que está em frangalhos e busca com as últimas forças mudança. Lá vai o tipo de gente que cansou de ser o que é, mas não sabe como mudar a situação atual. Lá vai o tipo de gente como eu que vê resultados, ouve explicações e consegue colocá-las em aplicação na vida e se sentem melhor com isso. Lá vai o tipo de gente que chora, que sente falta, que quer mais do mundo. Lá vai o tipo de gente que se curou, se melhorou e está feliz por isso. Lá vai todo o tipo de gente que não precisa ser nada a não ser gente. Lá vai o tipo de gente que tem sangue, coração, mente, que tem dor, aflição, vontade, que tem amor, provação, mas que não larga a vida de mão independente da necessidade. Confesso que olhando para todos naquele terreiro não vejo negros, brancos, amarelos, não vejo pardos, não vejo ensino fundamental, médio, não vejo faculdade, não vejo carro, não vejo o emprego...só vejo gente mesmo, do tipo que vive, que chora, que ama...lá só tem desse tipo mesmo.
E, sem mais a acrescentar, quis saber se tinha respondido a pergunta. Ela fez que sim e a mesa ficou por algum tempo estática. Pedi licença, estava na hora de ir, disse adeus a todos e peguei o rumo de casa. Que tipo de gente? Pensei sorrindo.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Ela [sempre] vem



A campainha soa. É ela que vem novamente, como tantas outras vezes. Veio a mim, em minha porta, nela bate, me chama. Quando abro a porta não me espanto de vê-la, linda. Como poderia ela ser assim tão sorridente? Adentra a casa sem que eu convide e é como se ela conseguisse preencher todo o espaço, todo o vazio, tudo a sua volta.
- Olá, velha amiga!
A palavra 'amiga' me sai cortando, mutilando, abrindo como um punhal tudo nele, de dentro para fora, até atingir o ar. Ela se volta para mim me encarando com um sorriso de palhaço de gesso.
- Confesso que preferia dizer "a quanto tempo" ou "que saudades", mas você tem visitado essa casa com frequência.  - Você vem visitando a mim, pensei.
Ela pega um copo e o enche de uísque, exatas duas doses sem gelo e põe em minha mão com suavidade. Sorriu para ela e silenciosamente levanto o copo em brinde.
- Por que estamos bebendo? Ao que devemos brindar?
Ela não me respondeu e até achei melhor assim. Eu sabia pelo que bebia. Eu sabia a quem brindar. Levei o copo a boca e engoli de guti-guti até onde pude aguentar. Meu estômago sentia o volume de meio copo de uísque sem gelo. O leve amargor reluzente imprimiu em mim uma careta. Não pude ver, mas sabia que minha cara repuxava até um sorriso sinistro, como se eu estivesse no Overlook, saudando fantasma à busca de um iluminado. Voltei o olhar para a convidada que me observava, certamente lendo meus pensamentos. Ela sentou-se no sofá e deu dois tapinhas no assento pedindo para que eu tomasse o lugar ao seu lado. Obedeci, sentei, larguei o copo na mesa de centro.
- Pobre Cezar! Você não está meio velho para eu vir aqui pelo mesmo motivo? Pobre Cezar, poeta tolo e inconsequente. Dentro de ti habita muito coração e pouco cérebro. Vou lhe instalar um sistema de segurança, um alarme que dispare e ressoe ao sinal de qualquer amor possível. - Gargalhou.
Ela ria de mim com uma graça malévola e isso sempre me encantava. Já passei por isso tantas vezes, já devia me acostumar. Conforme a ilustre companheira ficava e os copos se esvaziavam em mim, eu pensava: por quantas vezes, talvez, eu me encontrei com ela? Perdi a conta de vezes que chorei em seu colo. Perdi a conta de vezes que rimos juntos, da minha desgraça, claro.
- Fazia tempo que não a via. O que há de novo? Alguma nova glória? Um triunfo além do meu? Como é essa nova geração? Vocês se relacionam, digamos, bem?
- Well, well, well, meu trabalho se tornou mais fácil, confesso. Estou à caminho de um projeto de dominação mundial do qual eu nem mesmo fiz planos. Hoje eles me chamam, me procuram, me querem, não me afastam. Por isso já não trabalho mais sozinha. Tive de montar uma comissão, tenho muitos que me acompanham. Daqui a pouco devem estar por aqui, se não se importar.
- Que isso, esteja a vontade! Mas, por que está aqui? Desculpe, mas nem te chamei.
Ela gargalhou fechando os olhos e erguendo o rosto para o céu.
- Não me chamou? - Ela ergueu-se do sofá com rapidez e uma ponta de ironia transparecia em sua voz. - Pense bem, não me chamou? Que mentira! Eu só cheguei porque VOCÊ me chamou, só entrei porque VOCÊ abriu a porta, só estou aqui porque VOCÊ me quer. - Ela arqueou a sobrancelha esquerda e deu um meio sorriso pegando o copo de uísque e sentindo o cheiro da bebida - Eu sei, você sabe, Aurora sabia.
Ele ao ouvir aquele nome "AURORA" entrou em um transe profundo. Com os olhos fixos na mesa, sentado no sofá, com os braços apoiados nos joelhos.
- Que pena. Que pena. Aurora - Murmurava enquanto sua mente o transportava para um breve flashback cinematográfico. Aurora era linda, uma das poucas mulheres que conhecera e, acredite, ele conheceu muitas, que não precisaria de maquiagem ou qualquer adereço ela em si já se bastava. Conheceram-se na casa de um amigo e, ao vê-la, sabia que deveria estar com aquela mulher por toda a vida. O envolvimento dos dois se deu como tantos outros de tantas outras histórias, de tantos outros amores: desejo, conhecimento, ternura, alegria, paixão, envolvimento e, por fim, amor pleno e sublime. Era assim um casal como o tal "Eduardo e Mônica" e, no começo, como todo começo, correu tudo muito bem. Eram companheiros em todas as situações, se orquestravam harmonicamente na cama, faziam planos para a delícia da futura vida perfeita, e entre sonhos, cama e café decidiram enfim morar juntos. Antes não o tivessem feito, pois as implicâncias reais, as manias imutáveis, a falta de espaço sozinho(a), as expectativas pouco correspondidas, o outro incomoda e não à amor que perdure a socos e pontapés. E com o tempo, ah maldito conselheiro, o incômodo era reforçado pelas brigas de Cezar, seu vício pela bebida, seu vício pela vida, pela boemia, seu vício pelo mundo. Ele, eu, nós, nunca achamos verdadeiramente que Aurora poderia pensar em ir embora até porque, apesar de tudo, ela o amava, ela me amava e ele a amava. Depois das discordâncias, sempre a compensava, depois da ressaca curada saia com ela, lhe dava presentes, carinhos, novas expectativas e amor. E assim cultivava o amor esperava ele secar até as últimas e vinha com um balde de água gelada matar-lhe a sede para mais uma temporada de sol e esquecimento. Até o dia que ele chegou em casa, meio bêbado é verdade, e não reparou o silêncio, não reparou a carta na mesa, não reparou a cama vazia. Acordou sem saber onde estava Aurora e desde então não sabe para onde ela se foi. Que pena, Aurora. Acordou de sobressalto do flashback ao ouvir a campainha tocar, deveriam ser os demais companheiros. Abriu a porta e pode se admirar com as cinco figuras presentes naquela cena. Da esquerda para direita, uma mulher musculosa com o cabelo um pouco emaranhado carregando três mochilas nas coisas e quatro malas duas a cada mão; um casal de gêmeos, um menino e uma menina, de no máximo 10 anos, vestidos com roupas de criança dos anos 20, a menina de cabelos louros amarrados com fita e o rapazinho com uma bonezinho. Estavam de mãos dadas e dirigiam seu olhar para o chão; ao lado deles uma mulher divina, majestosa, sedutora, lábios vermelhos, cabelo cheio, encaracolados, negros, um vestido que é melhor nem comentar e, por fim, um rapaz de uns 30 anos, alinhado vestindo terno, ao vê-lo era impossível não notá-lo, as fantasias diziam que por baixo daquela roupa havia um corpo forte, musculoso, convidativo, ele era o charme personificado. Entraram todos passando por Cezar e foram de encontro com a convidada intrusa. 
- Boa noite a todos! Relatórios?
- Feito! - disse a moça das malas enquanto jogava-as ao lado do sofá.
- Estamos trabalhando. - Disseram os gêmeos em coro.
- Terminado. - Respondeu o rapaz charmoso.
A moça bonita só olhou e sorriu para a perguntante.
- Cezar velho, apresento a minha equipe de trabalho. São os melhores trabalhadores que já houve nesse mundo e em qualquer outro. Ainda estamos fazendo seleção o mundo novo, a nova geração, a nova condição de vida nos impulsiona para longe, para um lugar que nunca poderíamos ter sonhado. Logo, logo a empresa será a maior da história!!! Será maravilhoso. A das malas é a Culpa, você não sabe, mas ela tem dormido na sua sala. Os pequeninos são a Angústia e o Desespero é incrível como sentimentos tão velhos podem se moldar de forma pequenina. Eles não falam muito, mas executam muito bem o trabalho. Vivem rondando as pessoas, soprando-lhes "ideias". - Gargalhou enquanto dizia a última palavra - Reparei seu olhar para a Depressão, mas tome cuidado ela é sedutoramente perigosa, pode arruinar sua vida em pouco tempo. E esse rapaz, - e ela se aproximou dele, andando como se estivesse encanta, até agarrar-lhe a cintura - esse lindo rapaz é uma obra prima, ele é o finalizador, ele é o executor, é o último sorriso que eles vêem. Esse é o Suicídio, não converse muito com ele, é um ótimo manipulador e extremamente convincente. 
Cezar ficou aterrorizado com aquela percepção, fazia sentido tê-los todos em sua casa. Desespero e Angústia, a Culpa e seus pesos, a Depressão sorrindo-lhe, Suicídio acenando e, a primeira de todas em sua vida, a bela Tristeza. Cezar se colocou no centro, sentado no sofá, com o copo de uísque em mãos, enquanto os demais se arrodeavam dele, sentados, conversando, rindo, contando misérias, falando de mortes, mostrando martírios. Cezar não se apercebeu de nada disso, ficou paralisado longinquamente, bebendo uísque, pensando em Aurora - Onde está Aurora? pensava, pensava, pensava.
O dia amanheceu, levantou de solavanco o que fez com que sua cabeça desse uma pontada de dor lancinante.
- Caralho! - A palavra soou mais como um urro.
Ficou imóvel até se sentir melhor, mas a ressaca tinha arrasado seu corpo. Foi recordando a noite anterior, na sala só havia silêncio, alguma garrafas vazias de uísque, um cinzeiro abarrotado de pontas de cigarro. Onde estariam aquelas figuras que lhe acompanharam pela noite? Onde estariam? Levantou arrastando-se para o banho, pensando no ocorrido da noite anterior. O estômago roncava, reclamava das horas de abandono. Saiu do banho empurrando os chinelo. O silêncio do lugar o consumia, pensava em Aurora - onde está Aurora? - lágrimas escorriam, ele buscou a garrafa de uísque fechada, abriu e despejou o conteúdo no copo, levou a boca, engoliu. Começou um choro copioso, uma torneira aberta.
- Que grande merda! - Gritava a plenos pulmões - eu não quero o silêncio! Não quero morrer sozinho! Não quero o meu eu!! Aurora, Aurora, Aurora...Cadê a minha Aurora? Que merda! Que vida de merda! Que... - A campainha interrompeu o acesso de fúria. Foi a porta pronto a atirar o copo em que fosse. Abriu a porta.
- Graças a Deus você veio! - Abraçou a figura - Não quero ficar sozinho, não aguento esse silêncio, não quero pensar nela, não quero pensar nas coisas. - Deixava o choro escorrer pelo ombro da mulher que sorria. 
- Calma, calma! Eu vou cuidar de você.
- Você é minha única amiga. - choramingava.
- Tristeza é sempre uma boa amiga.

Com um sorriso estampado no rosto, um sorriso de alegria, de vitória, de doce ironia, a Tristeza entrou a casa. E assim o fez sempre o dono destrava o segredo da chave, sempre que a campainha era atendida, sempre que ele a queria e com isso foi tomando aquela casa, fazendo dela sua nova moradia.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Hue hue hue aqui é BR!



Hoje não vou contar realmente uma história, quero contar o que aconteceu comigo na terça-feira. Se bem que, por mais que eu diga não ser uma história, tudo em nossa vida é ou será história. Enfim, era uma vez eu, na terça-feira dia 16/09 no Shopping Iguatemi. Ganhei um sorteio para assistir ao filme Isolados graças ao Jurassicast (aliás se você não conhece os caras, dê uma olhada no site deles vale super a pena e ainda pode concorrer as pré-estreias cinematográficas [http://jurassicast.com.br/]), então ganhei ingresso duplo para ir com meu benzinho nessa tal shopping center e ainda tinha direito a pipoca e refri! Para que você entenda melhor a história veja o trailer aqui: https://www.youtube.com/watch?v=mzVAwEYAxx4. Você percebeu que não é só um filme brasileiro é um filme de suspense/terror brasileiro. É um filme diferente do que estamos acostumados a assistir, não é uma comédia besteirol como a maioria. É uma tentativa nova de fazer cinema brasileiro e foi o que mais me interessou, por isso tive mais vontade de assistir. O que eu achei do filme não importa aqui, na verdade não é a respeito do filme que quero falar, mas da reação ao filme nacional que os próprios brasileiros, e como sou de Brasília restrinjo à percepção dos brasilienses, têm do nosso cinema. Antes de ir ao cinema quando eu comentava com alguém sobre o filme a resposta mais certeira era: mas é nacional. Eu ainda não consigo dimensionar essa resposta, o que há de tão terrível no filme nacional? Porque, até onde eu sei, como filmes estrangeiros existem os bons e ruins, entenda que nacional não é e nem pode ser sinônimo de ruim. Filmes como Lisbela e o prisioneiro (2003) e Dois coelhos (2012) são brasileiros de gêneros diferentes e que eu amo assistir! Que são primores, cada um a seu modo. Com roteiros bem trabalhos, enredo, história, cenário. E se por acaso você não os viu, veja-os não vai se arrepender. Voltando ao cinema, por todo o filme, a maioria dos espectadores o encaram como uma piada, absolutamente nada estava bom, nada estava inteligente, nada estava nada. Eu tenho as minhas impressões do filme também, e acho que ele deixou uma história solta, era preciso desenvolver melhor alguns pontos, mas daí achar que tudo no filme é ruim, eu acho demais. São dois pesos e duas medidas, para filmes estrangeiros, e mais do que estrangeiros americanos, o nível de percepção e de exigência é mínimo. Filmes muito, extremamente ruins em questões de enredo e história se tornam obras primas por se falar inglês. Nos filmes nacionais reclamam das cenas de sexo, reclamam de palavrões, deve ser porque isso só acontece aqui, não é mesmo? Ou porque a visão dos cinéfilos fique um pouco turva quando se vê nacionais. Sinceramente, me irritou, só isso. Uma irritação que vem do fato de nós, como brasileiros que somos, nos desprestigiar de tudo que é nosso, de nos colocarmos em um papel tão pequeno. É sempre aquela carinha de "oh, coitadinho é brasileiro". Não é tanto o filme, mas é a postura que assumimos perante ao que é nosso. Não entendo porque a percepção geral se alia a filmes de comédia nacionais, como se o nosso cinema só pudesse oferecer esse tipo de filme. Realmente é só isso que podemos fazer, comédia? Drama não? Suspense não? Aventura não? O brasileiro está fadado ao riso desmedido, solto, frouxo e sem conteúdo. Não é tanto pelo filme, mas pela noção de que as capacidades dos nossos diretores, produtores, roteiristas, atores, cenógrafos só valem para fazer comédia afinal o brasileiro é um povo feliz e ri da própria desgraça a todo tempo, não é mesmo? Não sei bem, mas ao sair do cinema fiquei com um misto de "nossa" com "poxa vida", penso que talvez eu esteja muito sensível ao notar essas reações, quem sabe ninguém esteja depreciando as nossas produções, talvez eu só veja o lado ruim das coisas. Ou, quem sabe, talvez, de tudo o que eu disse alguma coisa tenha um sentido real e você esteja pensando: mas é nacional. 


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Send



A semana era sempre cansativa, sempre. O trabalho era sempre parecido, sempre. O sapato apertava o mindinho, sempre. Ela reclamava da vida, sempre. Mas na sexta-feira, sempre vinha a alegre expectativa do sábado. Ah, o sábado! Amanhã será um dia diferentemente igual, mas sábado é sábado. As sextas-feiras sempre a enchiam de ânimo, pois no sábado, sagradamente, escrevia para um amigo que se fazia distante a algum tempo. Chegou em casa normalmente, pegou a correspondência normalmente, deixou-a na mesa de entrada normalmente, trocou-se normalmente, comeu normalmente, deitou-se normalmente.
- Frida, venha para cama já estou muito cansada vou apagar tudo.
E Frida foi devagar para a cama grande de casal fazer companhia a Laura que já tinha apagado as luzes deixando somente o abajur do criado mudo ligado. Deitou de meias e pijama, se enfiou embaixo do cobertor, Frida se enrolou nela mesma no canto da cama. Antes de deitar e pegar no sono Laura afagou a companheira e lhe desejou boa noite. Apagou o abajour pensando na história daquela semana, o que iria contar, como contar e o pensamento embalou o sono, os olhos se fecharam e o mundo do Sonho foi aberto. Lá os portões eram largos e de ouro igualmente aberto para todos. E sonhando ela se viu em um campo, com montes pequenos, médios, que tomavam o horizonte. Tudo muito verde, tudo muito claro, tudo muito lindo. O céu era bem azul, com nuvens que andavam, no chão uma imensidão de flores. Estava com um vestido branco com pequeninas flores azuis bordadas, descalça sentia a grama acariciando os pés. Admirando a beleza daquela visão, percebeu que no terceiro monte, ali a uns 500 metros havia uma mesa de madeira com um único lugar, e alguma coisa em cima dela. Foi correndo, como uma criança, saber o que tinha lá. Quando pisava o chão borboletas alçavam voo e a envolviam, era uma dança natural e inocente. Chegou a mesa sem muito esforço e se deparou com uma máquina de escrever com um papel em branco. Milimetricamente calibrada para que alguém iniciasse a escrita. Olhou para um lado e para o outro, só havia o paraíso, ela e a máquina. Sentou-se na cadeira de madeira. Era acolchoada com um assento e encosto vermelho, reparou que o braço e a perna da cadeira eram talhados a mão com rigor e delicadeza. Eram formas que desconhecia, mas lhe parecia a coisa mais linda do mundo. Ajeitou-se na cadeira, puxou-a para perto da mesa, colocou as mãos nas teclas da máquina sentindo sua textura, fechou os olhos e respirou profundamente. Ouviu uma música ao fundo e quando abriu os olhos era o despertador das 7h40. Pensou com certa irritação: Não acredito! Desligou o alarme e tentou voltar aquele lugar no sonho, não deu certo. Às 8h, em ponto, iniciou sua rotina sabadal. Levantou-se, alimentou Frida, ligou o som, foi para o banho. Sábado o banho demorava mais, lavava os cabelos, cantava no chuveiro, passava os cremes frescos no rosto. Demorava 15 minutos sendo 5 de banho real e 10 de diversão. O sonho da noite anterior não lhe saia da cabeça, pensava: o que queria dizer? Um campo, mesa e máquina de escrever, eu hein? No som tocava Pedro Luis e a Parede e, no banho, ela fazia a melhor e maior performance para o público que consistia nas carinhas sorridentes feitas no box embaçado e sua gata, Frida, que parecia não gostar no show, pois estava sentada de costas para ela:
- Nossa Frida, você é uma ranzinza mesmo! - A gata nem se moveu.
Saiu do banho com os cabelos compridos enrolados na toalha, outra toalha enrolada no corpo. Cantava a plenos pulmões. Passou pela mesa da entrada para olhar a correspondência seguindo sua rotina sagrada de sábado. Olhou as contas, passando uma de cada vez, viu um envelope diferente, parecia uma carta, certamente era do amigo distante, todo sábado ela se preparava para ler a carta e enviar a resposta. Às vezes, escondia a carta no fundo do bolo de contas, demorava a abrir, fingia não saber que lá estava só para poder se surpreender com a carta. Abriu vagarosamente o envelope, sempre o abria de olhos fechados, gostava de apreciar aquele momento, sentia a textura do papel, pensava por quantas mãos passaram, pensava no seu amigo e quando abria os olhos já estava com o papel aberto em mãos. Quando abriu os olhos desta vez viu que não era a carta do amigo, estava digitado ao invés de manuscrito e não tinha o desenho de jasmim no canto direito. Leu as palavras, levou a mão a boca, tinha no rosto uma expressão de desespero. Não pode ser, não pode ser, não pode!! Pensava enquanto lia. Era verdade, a carta avisa do falecimento do amigo por um ataque fulminante do coração. Sentou na varanda da casa e chorou, um choro mudo. Não acreditava que aquelas palavras eram verdade, sentiu-se perdida, um sentimento de traição:
- Você disse que eu primeiro, seu mentiroso.
Chorava mais pelo susto do que pelo fato em si, sempre teve uma visão clara e serena da morte. Tinha sua própria fé. Quem a visse não diria que era choro, quem sabe uma alergia a fizesse lagrimejar, a água escorria sem sinal de desespero, não havia terror, era somente um choro. Um choro  de desculpas, talvez, por não o ver a tanto tempo. Um choro de lamento quem sabe de saber que não veria mais o sorriso divertido percorrendo o rosto familiar dele. Um choro de transbordamento de saudades. Frida reconheceu os olhos da companheira e se alojou em seu colo, uma bola de pelo que dizia no silêncio: me acaricie e deixa a dor passar, vamos compartilhar para ir embora logo. Acariciando Frida, fungando de vez em quando, a mão na boca, a água escorrendo. Essa cena durou pouco mais de uma hora, quando as lágrimas pararam de descer deixou que o vento secasse seus rosto. Segurou a cabeça de Frida, deu-se um beijo e disse:
- Vamos entrar, estou com frio. E a vida...continua, não é mesmo?
A gata se espreguiçou em seu colo e pulou para o chão, roçou em suas pernas e entrou casa a dentro correndo para o arranhador. Ela ainda se abraçou, olhou para o céu e murmurou:
- Depois me conta como é aí.
Laura então deu prosseguimento ao seu dia e embora a ideia da perda martelasse na cabeça vez ou outra tentava não se apegar ao impossível e seguir. Mais tarde, ao começar a noite, recebeu um telefonema. Do lado de lá da linha era dona Antonia, mãe do amigo, fungando, voz miúda, contando o ocorrido, disse que o enterro só poderia ser feito na quinta. Laura disse que iria, mas mentalmente sabia que não.
- Tudo bem, se a senhora precisar de alguma coisa me avisa tá?
- Sabe minha filha, estou precisando sim. Você pode vir aqui amanhã...é, que...eu tenho de ajeitar o quarto que era do meu me...me...menino - E o choro rompeu a garganta da velha - e não dou conta e fazer isso, pelo menos não sozinha. Você pode vir?
Laura respirou fundo antes de responder, sabia que a senhorinha precisava dela, mas não se sentia preparada à perceber que perdeu de vez o amigo.
- Claro dona Antonia, claro. Amanhã chego às 10h, pode ser?
- Claro minha filha! Agradeço imensamente!
Colocou o telefone no gancho e ficou olhando fixamente para ele, parecia esperar por uma ligação. Olhando, olhando, olhando, lembrou do sonho, o que será que aquele sonho dizia? Que sonho mais estranho? Perdida no desconhecimento do sonho ficou olhando para o telefone e só voltou a si quando Frida, querendo um pouco de atenção, pulou em cima do telefone. Laura assustou com a ação recuando para trás:
- Ahh, depois o pessoal fala que gato não é carente - passava a mão pelo dorso da gatinha - ai, ai, me diz Frida pra quê que eu me meto nisso?
A noite se aprofundou, colocou o pijama, a meia, ligou o abajour, convocou Frida para a cama, deitou a cabeça no travesseiro, desligou toda a luz e um pequeno riozinho molhou seu travesseiro trazendo o sono à barco.
Lá estava ela novamente, no mesmo lugar, mesmos montes, mesmo verde, mesma beleza, mesma clareza. Estava também a mesa, a cadeira tudo em madeira. O objeto que não reconhecerá da primeira vez mais agora sabia que era uma máquina de escrever. Ela correu para o lugar, as borboletas reapareceram. Chegou, sentou, sentiu a madeira da mesa, passou as mãos nas teclas da máquina. Olhou para o horizonte e reparou um objeto que não tinha visto antes, lá em frente longe dela a uns 400 metros.
- O que é isso? Parece um, sério mesmo?. Parece uma caixa de correio daquelas de desenho, tem até a bandeirinha vermelha. Mas para quê uma caixa de correio se não tem casa ali.
Ouviu uma música ao fundo e quando abriu os olhos era o despertador das 7h40. Pensou com certa irritação: Não acredito! Desligou o alarme e tentou voltar aquele lugar no sonho, não deu certo. Às 8h  em ponto acordou - De novo esse sonho? - seguiu a mesma rotina de sempre. Às 9h40 foi ver dona Antonia. Ela não morava longe de sua casa e por isso foi a pé mesmo, eram 3 quadras martirizantes que a levavam para uma realidade um tanto dura demais, um tanto real demais, um tanto irreversível demais. Ao passar por aquelas ruas, lembrou vivamente da infância, ruas percorridas tantas vezes pela bicicleta, pela bola velha, pelos pés descalços. Sorria silenciosamente das lembranças, traquinagens de meninos. Ela, o amigo, dona Antonia, sua mãe Lucinda. Chegando a casa de destino não chamou a dona de primeira. Primeiro gastou uns minutinhos olhando admirada a arquitetura colonial do sobrado. A casa era branca, um tanto suja pelo anos de vida, mas dispensava um glamour que era impossível de não ser reparado. Tinham dois leões nos cantos guardando a casa e um jardim revestido de rosas e jasmim. Laura ficou fascinada pelos jasmins desde a primeira vez que os viu e se tornou a flor preferida dela, não que as rosas fossem feias tinham sim sua majestade, mas o jasmim tinha uma sutileza de toque, uma delicadeza, uma simplicidade, uma calma e um cheiro incomparáveis. Depois de pensar um pouco, bateu palmas para chamar:
- Dona Antonia?
Ouviu os barulhos da casa e esperou a porta se abrir.
- Ainda bem que você chegou minha filha, estou passando café novo. Venha, entre você sempre foi de casa!
Subiu os cinco degraus que separavam o jardim da casa e entrou. O café já perfumava o ambiente e a mesa da cozinha estava posta com todos os biscoitinhos e mimos da infância:
- Nossa a senhora não perde a mão, mas parece que um batalhão virá comer conosco.
A mesa estava coberta por uma toalha branca rendada, os pratos e xícaras eram conjuntos tão lustrosos que pareciam ter saído da caixa naquele instante, os talheres dispostos simetricamente. Na mesa, em cestos de palha com babadinhos de lado, havia uma imensidão de sabores: rosca de doce de leite, de canela, rocambole de goiabada, biscoito e pão de queijo, peta, leite, pão caseiro, queijo e requeijão vindos da roça.
- Senta minha filha, só vou terminar o café e trago.
- Sim, senhora.
Laura reparou o rosto abatido na senhora e se lembrou do porquê estava lá, sentou-se na mesa posta para dois. Olhou os arredores da cozinha, tudo que já viveu ali. Se viu menina correndo a procura do amigo que se escondia tão bem que ela desistia de procurar e ia comer as guloseimas que dona Antonia fazia questão de fazer. Uma vez deixou o amigo plantado no esconderijo por tanto tempo que ele se embraveceu e disse que nunca mais ia brincar disso. Ainda bem que o "nunca mais" infantil é só até a fúria passar o que não leva mais do que 5 minutos - Esconde-esconde - pensou- nunca tive paciência para isso. 
- Aqui está o café. Adoro esse cheirinho de café novo. Você já comeu?
- Não, ainda nem tinha tomado café-da-manhã. 
- Isso é bom, porque a mesa está farta!
As duas comeram sem trocar muitas palavras, cada uma pensando no que fariam juntas, cada uma com a memória do amigo/filho, cada uma com sua saudade desmedida, cada uma com um medo danado de mexer no que, agora, estava assim sem dono. Terminaram de comer e em silêncio sacudiram a cabeça uma para a outra fazendo um gesto de sim. Levantaram-se e a velha segurou a mão de Laura parte para guiá-la ao quarto conhecido, parte para ter forças de ir até ele. Entraram, desataram as mãos e Laura, que estava três passo a frente da velha, reparou que tudo estava no mesmo lugar desde do dia da partida, tudo muito limpo e cheiroso, mas nos mesmo lugares. Olhou para trás a busca da senhora e a viu escorada no portal chorando de cabeça baixa, Laura com a mesma vontade se controlou para a ajudar a velha a não sofrer. 
-Oh, dona Antonia, eu sei que é difícil. Eu sei.
Antonia respondia entre fungadinhas curtas.
-Minha filha, eu nunca esperava ficar nessa terra sozinha sem meu menino. Isso não é nem natural...sinto como se metade de meu coração, simplesmente não batesse mais. Como se eu não tivesse propósito de ser aqui. Sou velha, já não trabalho mais, já não tenho menino para criar. Só sou eu e meu jardim, eu e a casa, eu e o vento, a poeira. Do que vale ficar aqui se não tenho mais preocupação com o coração dos outros, se a parte do meu coração não bate mais?
Laura só olhava para a Antonia, o que dizer a uma velha que, no fim das contas, estava de certo modo certa? O que ela poderia dizer para confortar uma mãe cujo o coração só batia em função do filho que era sua alegria? Ela definitivamente não pode dizer nada, mas, por puro impulso, abraçou aquele corpo abatido, fraco, pequeno, magro e triste. Aninhou Antonia nos braços como se agora ela, Laura, fosse sua mãe, como se ela fosse a mãe do mundo a trazer a paz ao coração dos que sofrem. 
- Dona Antonia - dizia ainda abraçada - eu não tenho muito a oferecer, mas se a senhora quiser pode morar comigo, ou passar uns tempos lá em casa. Assim não fica vivendo aqui, lugar que traz tanta lembrança...ah e lá em casa a senhora vai ter uma filha para cuidar, minha gata. Pense num bicho arteiro que não para quieto, tenho certeza que vai ficar com a mente ocupada.
A velha deu uma risadinha em meio ao choro.
- Obrigada minha filha vou pensar na oferta.
E ao dizer isso olhava nos olhos de Laura e se podia ver gratidão.
- Então vamos começar a arrumar esse lugar. Como a senhora quer fazer? Quer guardar alguma coisa?
- Vamos assim, as roupas e sapatos que ficaram vão para a doação. Assim como os livros, os cds. Aliás se minha filha quiser algum pode ficar. Depois já arranjei uma casa de crianças para doar a cama, o armário, a tevê. A única coisa que quero mesmo são as fotos dos porta-retratos e aquele cordão com o dente de tigre que ele usava.
- Então tá, já vi que a senhora colocou as caixas aqui, vamos arrumar! Mas para dissipar a tristeza vou colocar os cds dele para tocar, assim lembramos momentos felizes e ele escuta música boa do lado dos mortos.
E assim foi feito, colocou rock pra tocar e foram tirando as coisas do cabide, das gavetas, das prateleiras. E a cada peça que ia para a caixa vinha um história que vazia as duas rirem. Histórias antigas que mostravam uma pessoa alegre e despreocupada, histórias que mostravam um rapaz sincero e, por vezes, inconsequente. Histórias que reconfortavam as duas como se a vida daquele ser, com as palavras das duas, o mantivesse vivo, ali olhando para elas, contando suas próprias histórias. Laura passou o dia com Dona Antonia, entre arrumação do quarto e quitutes sempre ao som da lembrança dele.
No almoço, estrogonofe de frango, Laura contou a Dona Antonia, entre uma garfada e a alegria do sabor, o sonho da máquina de escrever.
-...e aí eu vi uma caixa de correio, mas não sei o que quer dizer e nem sei dizer o porque não consigo escrever na máquina de escrever. 
- Estranho né? Quem sabe você tenha que passar uma mensagem para alguém, mas ainda não está preparada para escrever. Não sei, mas a caixa de correio deve estar lá pra você mandar alguma coisa para alguém. 
- Hum, eu não estou preparada porque nem sei pra quem é. Sorriu a menina.
Ao final do dia, caixas fechadas, trabalho feito. Alguns livros e cds a mão, Laura se despediu da velha que parecia estar melhor. As bochechas lhe iam mais coradas, talvez o coração tenha aumentado a intensidade do toque.
Voltou para casa com lembranças que nem sabiam ser suas e histórias novas para lembrar. Chegou exausta do dia, abriu a porta e Frida a recepcionou com um misto de saudade e fome. 
-Oi boneca! Já sei, esqueci da sua comida. 
Os olhos de Frida confirmaram e a pequena companheira saiu correndo para a tigela. Alimentou a pequena faminta e se despiu para um tão sonhado banho. Ficou lá por vinte minutos, a água escorrendo quente em suas costas dava uma sensação de alívio, enquanto estava no box sua mente refletia o que Dona Antonia tinha dito sobre o sonho: mensagem para alguém. Mas quem ia querer receber minha mensagem, ainda mais em sonho, pensava naquele argumento sem entender direito. Sentou-se um pouco a frente da tevê assistiu qualquer coisa que passava, Frida enrolada ao seu lado. 
- Ahhhhhhhh - dizia enquanto se espreguiçava - vamos para cama sim! Ainda bem que amanhã é feriado.
E assim foi, pijama, meias, cobertor, abajur ligado, Frida enrolada nela mesma no canto da cama, abajur apagado, sono profundo.
E lá estava ela, nos montes verdes, no lugar claro, as borboletas, a mesa, a cadeira, a máquina de escrever, o papel. Olhou para frente e a caixa de correio de desenho ainda estava lá. 
- Ai, ai, ai! Como é que vou mandar alguma coisa para lá? E quem é mesmo que vai receber isso?
Sentou na cadeira de madeira e apoio os cotovelos na mesa, as mãos segurando o rosto e um bico imenso como de uma criança contrariada. 
- Mas que droga, vou morrer aqui sem saber o que fazer.
Olhava aquela caixa de correio ao longe com uma raiva infantil maldizendo o pobre objeto que nem ao menos podia se defender. Até que avistou alguma coisa em movimento, indo em direção a caixa. Era um homem alto vestindo um terno azulado e gravata borboleta. 
- Oxi, quem é...
E não conseguiu terminar a frase, porque viu mesmo de longe, mesmo sem tanta nitidez, que o rapaz alto era o seu amigo. 
- Jorge!!! 
Gritou se levantando da cadeira e começou a correr em direção ao amigo. Enquanto tentava correr via Jorge fazer que não com as duas mãos e a cabeça reparou que mesmo depois de tanto correr não saia do lugar estava lá ao lado da mesa. 
- Eu não tô acreditando que o Jorge está bem ali e eu nem posso ir lá falar com ele. Mas que droga!
Sentou-se novamente com os braços cruzados e um bico maior ainda. Olhava para Jorge que parecia rir da sua cara.
- Continua um ridículo, mesmo depois de morto!
E ele fazia movimento com o dedo apontando para a caixa de correio freneticamente. Ainda levou uns instantes para que Laura entendesse: "Estranho né? Quem sabe você tenha que passar uma mensagem para alguém, mas ainda não está preparada para escrever. Não sei, mas a caixa de correio deve estar lá pra você mandar alguma coisa para alguém". 
-Claro! Dona Antonia, a senhora é uma linda!!
Endireitou-se na cadeira, passou as mãos nas teclas e parou puxando as mãos para si. Tá - pensando - mas o que eu vou escrever? O que eu iria escrever no sábado? A mão voltou as teclas e tatibitati começou.

Mundo do sonhos, algum dia/certo mês/anoenoino

Querido Jorge, 

Querido não que isso é coisa de quente fresca, insuportável Jorge. Essa semana aconteceram várias coisas chatas como sempre te conto. É sempre assim por essas bandas daqui. Você sempre vem com histórias mirabolantes de como conheceu um milhão de pessoas, e lugares, e coisas e eu? Bom eu fico aqui ouvindo suas histórias e imaginando se eu teria a coragem de sair pelo mundo conhecendo tanta coisa que nem sei. Será que eu, pacata moça da cidade alta, conseguiria me aventurar pelo mundo sem saber direito o que encontrar? Eu que sempre, ou quase sempre, tenho um plano bem bolado, bem simétrico, bem bonito a seguir? Será que eu saberia me lançar ao desconhecido do mundo? Who knows? O único desconhecido que venho conhecendo é o mais íntimo de mim e, sinceramente, não tem sido fácil. Às vezes me deparo com buscas e pensamentos que me parecem estranhos, que parecem não serem meus. Talvez os anjos teem me soprado para ver se consigo atingir a direção certa, ou quem sabe o demônio é meu amigo e tem me mostrado caminhos tão acertados...só para implicar com Deus e mostrar que ele também é legal. As bandas brasileiras continuam com as mesmas crises, políticos, religião, preconceitos sem medida e me vem aquela vontade de ir embora. Me parece que a cada passo dado para frente, um salto enorme é feito no sentido inverso. Você sabe que não sou pessimista e continuo a não ser, mas vai dando aquele abatimento, aquela impaciência. As discussões não progridem, as ideias não diversificam, as pessoas parecem mulas de carga. "O bispo mandou eu vou fazer, o pastor mandou eu vou votar, o papa falou eu vou me jogar da ponte com uma pedra amarrada no pé, o pai de santo disse eu vou sair arrebentando a cara dos outros", sério esse povo só tem cabeça para enfeitar. Sempre foi assim, pensar dá trabalho não é mesmo? Mas deixemos as besteiras de lado. Ah, sim!! Aconteceu uma coisa muito estranha no sábado, um amigo meu morreu. Pois é! Foi um susto danado pra todo mundo. Eu me senti terrivelmente perdida, fazia anos que não o via embora soubesse tudo de sua vida, embora nos correspondêssemos quase semanalmente. Ontem estive com a mãe dele e, por mais que achasse saber muito dele, descobri histórias engraçadíssimas a respeito da infância e personalidade daquele menino. É engraçado pensar que por mais próximo, por maior que seja o contato, nunca se sabe ao certo quem é a pessoa que nos acompanha. Mesmo com todo o tempo de convívio as surpresas aparecem. Que pretensão achar que conhece o íntimo de um outro ser, se nem mesmo ele sabe? Nossa, como estou filosófica. Vou até pegar meu cachimbo de bolhas e meu monóculo e vamos falar a respeito da essência do ser, que tal? Quem sabe consigamos esmiuçar o humano em sua superfície mais rudimentar e sensível, ou (e o que é mais provável) nos embriagaremos de brigadeiro deixando a discussão para depois e vendo um filme. Aliás, ainda não assisti Rock Balboa e aquele quebra-cabeça continua no meu armário te esperando. Como está o apartamento aí? Na última carta me disse que tinha dado chabu no aquecedor. Se bem que me parece...sua casa é outra agora. Mande-me notícias sempre que puder, toda vez que vier aqui te escrevo, ok? Sem melosidades, mas cheia de beijos e abraços! 

Laura - Lariema

Quando terminou a carta ela sumiu e a caixa de correio de desenho levantou a bandeirinha vermelha, Jorge pegou o papel que estava fechado em envelope. Laura acho aquilo lindo, felizmente poderia continuar com as cartas que tanto lhe davam prazer. Ao lado da mesa em que estava sentada apareceu também, brotada do chão, uma caixa de correio de desenho, só que a sua bandeirinha era roxa.
- Claro, minha cor predileta. 
E gritando para Jorge:
- Deixa de ser preguiçoso e manda logo alguma coisa.
A bandeirinha roxa se levantou, ela abriu a caixa de correio e lá havia um jasmim com um bilhete.
"Oras, nunca fui preguiçoso! Cuide de Dona Antonia pra mim, ela precisa de todo seu carinho. Diga-lhe do sonho, diga que estou bem, só com um pouco de saudades. Diga para ela achar outros tantos meninos para fazer o coração bater novamente. Dê a ela um motivo de continuar. E quanto a você, menina perdida, sem melosidades, mas cheio de beijos e abraços! Já mando mais notícias." 
E naquele dia ela acordou, não pelo despertador, mas pelo cheiro forte e doce de jasmim. E naquele dia ela acordou com certezas, Jorge não estava exatamente morto.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

E o Rio?



Esse foi um final de semana diferente e, por isso mesmo, venho diferente, falando assim eu mesma, em 1ª pessoa. Tive a oportunidade de acompanhar uma viagem ao tão iluminado Rio de Janeiro, espaço geográfico quase mítico, quase como o misterioso Triângulo das Bermudas. Quem vive lá não larga, quem visita quer ficar. Essa movimentação interior, que move os corações daqueles que estiveram ou estão no Rio de Janeiro, me inquietou. Afinal de contas o que há de tão esplendoroso nesse lugar? Confesso que viajei com ares de Sherlock Homes para desbravar as pistas do movimento universal de amor àquela cidade. Na mala levei minha lupa e meu cachimbo de soltar bolhas e, claro, um biquíni para as horas livres de detetive [todos somos filhos de Deus, não é?]. Todos sabem [e os que não sabem saberão] que o Rio de Janeiro é palco de formosura e por lá desfilam grandes belezas. Temos morros, pedras gigantescas, grandiosidade aterradora para qualquer ser humano mais sensível. Temos as belezas arquitetônicas colocadas ali, milimetricamente pensadas para que o encanto envolvesse toda a atmosfera do lugar. São verdadeiras esculturas ao ar livre. Temos a orla que não teria como não ser divina envolta de tanto mar. Temos os sorrisos bronzeados dos que passeiam pelos calçadões e parecem ter se perdido do mundo real por esbanjar tanta alegria. Temos muitos e muitas com poucas roupas, por causa do calor claro, desfilando corpos normais, vivos, belos, ostentando sensualidade e calor [mesmo que sem querer] por poros abertos pela maresia. Ah, uma paixão mais que especial, e bastante íntima, temos o sotaque carioca. Ai, o sotaque! Não sei o que há naquele jeito mole de falar que me envolve de ternura e graça e sinto vontade de ir para praça escutar o povo a falar. A falar qualquer coisa, até um xingamentozinho, uma briguinha na rua, um “vai tomar no cu” do motorista de coração e carro fechado, dito sem medida. Coisas de quem se formou em letras e se apaixona sem medida pelas peripécias da língua. Em contraponto, como toda cidade real, temos problemas também. Vi assalto, tive desconfianças dos outros, tive medo, andei com poucas coisas, não chamei a atenção, fechei a cara [como se isso me assegurasse de alguma forma], olhava para todos os lados, tive atenção redobrada. Mesmo com a lupa sempre a postos e o olho aberto, arregalado, não conseguia entender o porquê daquele cenário ter sido cantado por tantos grandes nomes. Não conseguia entender o porquê de terem tantos textos belíssimos, de fazer qualquer um suspirar, escritos para aquele lugar, por aquele lugar. Não conseguia entender o porquê de tantos defensores fanáticos da cidade. Qual é o mistério mítico do Triângulo do Rio de Janeiro? Repare que eu disse: não conseguia. Hoje eu consigo. Fui convidada para um jantar no clube Caiçaras, que fica em uma ilha [um pedacinho de terra] no lago Rodrigo de Freitas. Ao andar pelo clube conhecendo suas instalações, passeando por detrás das quadras, um estrondo de luminosidade guiou meus olhos, minha lupa e meu cachimbo para a compreensão de tudo. Então era por isso! Lá atrás das quadras, longe dos meninos gritando, longe das bolas chutadas, havia uma fenda para um universo silencioso e convidativo. Ao atravessar para este lugar pude ver o que outros tantos antes de mim viram e entendi os versos, as odes para aquela cidade chamada de maravilhosa. Do lado de lá do portal as lâmpadas dos postes estavam apagadas possibilitando que minha visão se expandisse para o que estava ao meu redor. Vi um céu enegrecido, distante, com uma lua [quase] cheia e estrelas. Vi no chão uma cidade iluminada com toda sua pulsação, quase caótica, mas silenciosa como se todos se movessem ensaiados em uma mímica ritmada. Vi bem lá no alto o Cristo Redentor com seus braços abertos para uma luz levemente arroxeada. E, por fim, vi que entre o chão e o céu estava o contorno daquelas pedras, montanhas de sublime beleza que se destacavam do céu negro, contorno cinza enevoada que trazia uma sensação de divinizena. Era a substância de Deus na montanha, era a substância da montanha em Deus. Sabe aquela coisa? Eu estou aqui, você sabe que estou, mas só posso te mostrar minha sensação, minha borda, minha essência. E, naquele momento, simplesmente não importava que a ilha ficasse em águas tão poluídas que não se podia nadar, não importavam os crimes, não importavam as desconfianças, porque, naquele exato momento, eu pude ver a criação do mundo, da natureza e do homem em um breve lampejar de clareza. Não importava nada, a não ser parar e contemplar aquela grandeza [in]finita. Hoje consigo entender os versos de amor dos meus cantores prediletos e, por já ter descoberto o mistério, deixei minha lupa por lá mesmo pelas bandas de Copacabana, talvez a tenha esquecido em Ipanema, Botafogo, quem sabe na Lapa, no Arpoador ou no Catagalo, fixada em algum castelo de areia, em algum baile funk, em alguma mesa de botequim, para que quem sabe, quando volte, possa conhecer outros tantos mistérios da cidade que é também para mim maravilhosa.

"Vai, meu irmão
Pega esse avião
Você tem razão de correr assim
Desse frio, mas beija
O meu Rio de Janeiro
Antes que um aventureiro
Lance mão"

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Ana e Frida


Ela se preocupava um pouco Ana geralmente não demorava a voltar para casa e já passava das nove. Não quis pensar em nenhuma tragédia, mas o coração que ama só enxerga besteira. Tentou não pensar naquilo, logo, logo Ana estaria em casa. Realmente não tardou muito e ouviu a chave na fechadura, mexendo rigidamente para o lado direito, vencendo o segredo e abrindo a porta. Frida se ajeitou e virou os olhos para porta:
– Até que enfim!
Enquanto Ana entrava dizia:
–  Eu sei, eu sei, eu sei, estou atrasada. – Fechou a porta e a trancou, entrou pela sala e olhou para Frida – Desculpa o atraso e para de me olhar assim! Já estou aqui!
–  Fiquei preocupada, o que aconteceu?
–  Desculpa, é que encontrei uma amiga, a Helena, lembra-se? Ela já veio aqui. Encontrei com ela e ficamos batendo papo ali no shopping e quando vi já eram essas horas.
Ana se aproximou de Frida e a beijou. Foi entrando no quarto, guardou a bolsa, sentou-se na cama, tirou o sapato que estava apertando o mindinho.
– Meu Deus, eu ainda fico sem esse dedo! E aqui, aconteceu alguma coisa? Como foi seu dia?
– Você sabe como é, né? Minha vida é um tanto monótona. Dormi um pouco, pensei um pouco, nada fora do comum.
–  Hum, é mesmo?
– É sim.
–  Nossa, eu estou morta de fome. Vou fazer um rango, está a fim?
– Sempre!
Caminharam para a cozinha, Ana pegou as panelas e o macarrão. Frida ficou junto dela, escorada na bancada americana que dava para a sala.
- Sabe Frida, até que foi bom encontrar Helena assim de surpresa.
- Por que?
- Meu dia estava tão triste, tão sem graça. Tive que ouvir cada asneira, cada idiotice, cada bocozisse.
- Por que?
Ana olhou para a companheira a expressão de dúvida que Frida fazia estava tão bem desenhada que fez com que Ana risse.
- Para de rir de mim!
- Sua cara de dúvida está tão marcada que se eu fosse você virava atriz e ficava rica. – Ana riu novamente –Continuando, hoje foi um daqueles dias de cão.
- Sei, aqueles bichos feios!
- Fiz um cronograma de tarefas que deveria cumprir durante o dia, mas não consegui finalizar graças aquele B-O-C-Ó do meu chefe que não para de fazer reunião para nada. Sabe nada? Então, nada. Minha mesa entulhando de tanto papel, relatório, avaliação, requerimento, processo, atualização, decisão e não consigo ficar sentada 5 minutos em paz. Arh!!!
Enquanto falava sobre seu dia Ana aumentava a voz, virava as mãos como se arrancasse alguma coisa do vento, sacudia a cabeça, fazia bico, mudava de voz. Frida, que já conheci Ana fazia tempo, preferiu não expressar opinião. Sabia que ela estava irritada, sabia que não era hora de falar só ouvir, sabia que em breve isso passava e sabia que, por mais brava que estivesse, não conseguia ser uma pessoa dura. Ana nascera para ser doce e Frida sabia disso. Depois do jantar reclamão e do carinho dato pelos olhos atentos Ana abaixou a guarda e decidiu que não pensaria mais nisso.
- Deixa para lá, não é? Só porque meu dia não começou bem, não quer dizer que não vai terminar bem. Que tal filme largada no sofá?
- Claro!
Assim decidiram, assim fizeram. Ana sentou-se meio deitada no sofá, Frida deitou em seu colo e sentiu o calor da mão que lhe acariciava com cuidado e amor. Frida sabia que era amada e que Ana nunca a machucaria e que, por mais difícil que fossem os dias, tudo passava. Amor, amor era assim mesmo e o delas era puro e verdadeiro. Não importava o que dissessem sobre o assunto, não importa o que os outros achavam – “Eu hein, que coisa estranha” –, as duas sabiam que eram uma da outra como predestinação. Carinho se cria, amor tem-se ou não. Ana havia a acolhido em um momento muito difícil, estava sozinha, triste, desiludida, largada no mundo, mas a partir do momento que seus olhos se cruzaram sorrisos nasceram em seus corações. Era mais do que gratidão, era mais do que carinho, era um amor sem medida, um amor que cuida. Pensando nessas coisas, de olhos fechados, ao receber as carícias esperadas por todo o dia, Frida adormeceu. Quando abriu os olhos novamente já devia ser umas 2h da manhã. Espreguiçou-se, levantou, acordou Ana:
-Vamos para cama?
- Hum, já vou. Deixa eu me colocar no lugar. Ai meu pescoço, fiquei toda torta.
Ana caminhou meio cambaleando para cama, colocou um pijama, ajeitou as cobertas, apagou a luz.
- Você vem?
Disse Ana.
- Só até você dormir, sabe que a noite eu não tenho sono.
Ana adormeceu sem saber o que Frida dizia. Ana nunca saberia o que ela dizia e Frida nunca saberia que não era entendida. Frida, a gata vira-lata adotada a pelo menos 3 anos, não sabia que a dona não a entendia, imaginava que suas conversas eram feitas com completude. Ana, que sempre conversava com a companheira felina, imaginava o dia em que seria respondida pela mais compreensiva amiga que já teve. Elas não se comunicavam verbalmente, mas seus corações eram próximos, unidos, se correspondiam. Carinho se cria, amor tem-se ou não e elas tinham.



*Em homenagem a minha querida companheira, aquela que não sabe ler palavras, mas que decifra meu humor como ninguém.*